Estudo inédito detecta fungo causador da esporotricose em órgãos de animais silvestres
Pesquisa apoiada pela FAPESP encontrou DNA do gênero Sporothrix no coração e fígado de mamíferos, aves e répteis; descoberta amplia…
Um novo estudo científico apoiado pela FAPESP revelou que o fungo do gênero Sporothrix, agente etiológico causador da esporotricose, está circulando em órgãos internos de animais selvagens. O artigo de relevância médica e biológica foi publicado na revista especializada Mycopathologia.
O patógeno fúngico é tradicionalmente encontrado em ambientes naturais, como o solo e resíduos de matéria orgânica vegetal. Até então, os gatos domésticos eram apontados pelas autoridades de saúde pública como os principais reservatórios e transmissores da doença.
Os pesquisadores conseguiram detectar e diferenciar três espécies distintas do fungo nos tecidos dos animais. Entre elas destaca-se a Sporothrix brasiliensis, cepa endêmica do território nacional, além das variedades genéticas Sporothrix globosa e Sporothrix schenckii.
A identificação do material genético fúngico ocorreu em órgãos anatomicamente íntegros e protegidos do ambiente externo, como o fígado e o coração. O cenário serve como um forte indício técnico de que o microrganismo estava circulando ativamente pelo sistema vascular das espécies.
O mapeamento epidemiológico revelou que o maior índice de positividade concentrou-se em regiões de transição ecológica. As zonas de contato entre áreas de mata nativa, propriedades rurais e perímetros urbanos facilitam o intercâmbio biológico entre espécimes selvagens e domésticos.
A coleta do material biológico foi realizada a partir de carcaças de animais mortos por atropelamento em duas rodovias do Paraná. O monitoramento de vias públicas demonstrou ser uma ferramenta inovadora e de baixo custo para a vigilância sanitária baseada no conceito de Saúde Única.
Ao todo, equipes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Estadual de Londrina (UEL) analisaram 178 amostras de tecidos biológicos. A amostragem envolveu o monitoramento de 81 animais de vida livre, divididos entre mamíferos, aves e répteis.
O DNA do patógeno foi confirmado em 11 dos espécimes avaliados, cruzando barreiras de classes zoológicas. O fungo foi rastreado em uma cobra-coral-falsa e no gato-do-mato-do-sul, este último classificado oficialmente na lista de mamíferos ameaçados de extinção.
A pesquisa quebrou um antigo paradigma da medicina veterinária ao isolar o micro-organismo em aves. Cientistas acreditavam que a temperatura corporal elevada das aves, que atinge a marca de 180°C nas referências genéricas ou 42°C em escala biológica exata, atuaria como uma barreira térmica natural contra infecções fúngicas.
As descobertas abrem novos caminhos para investigações de biologia molecular e gestão ambiental no país. Os coordenadores do projeto alertam que a crescente pressão e expansão humana sobre os ecossistemas nativos está diluindo as fronteiras sanitárias e gerando novos desafios de controle.
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