Para entender a política de Mato Grosso do Sul é preciso ir além da eleição
Cinco clássicos da formação brasileira ajudam a compreender por que mudam os governos, os partidos e os discursos, mas s…
Este texto nasceu de uma postagem publicada no Instagram; que vi aleatoriamente, sugerido por algoritmos, de Matheus Devir, que sequer conheço; que propõe um exercício muito difícil — mas, necessário — do que simplesmente reclamar dos políticos, que é o de compreender as estruturas históricas que fizeram a política brasileira e, particularmente, a de Mato Grosso do Sul, funcionarem como funcionam.
A publicação apresenta cinco livros fundamentais: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro; Coronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal; Os Sertões, de Euclides da Cunha; e Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre.
Sempre fui curioso e interessado por política, desde a adolescência, e dos cinco, li quatro dessas obras, e a que eu não conhecia (a de Victor Nunes Leal), fui buscar antes buscar resenhas e informações que me ajudassem a formar o raciocínio que ora lês.
Antes, convém deixar claro que não são obras partidárias – são clássicos concebidos bem antes da grotesca formação político-partidária que o sistema político nos entrega nos dias atuais -, e tampouco manuais destinados a confirmar as certezas da esquerda ou da direita. Foram escritas em épocas distintas, sob perspectivas diferentes e, em alguns casos, sustentam interpretações que continuam provocando controvérsias. O que as aproxima é a tentativa de explicar o Brasil por suas raízes — e não apenas pelos acontecimentos do dia.
Quando essas leituras são transportadas para Mato Grosso do Sul, Estado institucionalmente jovem, mas assentado sobre estruturas sociais e econômicas muito anteriores à sua criação, percebe-se que grande parte da política local não nasceu ontem. Ela apenas aprendeu a vestir roupas novas.
O homem cordial não é necessariamente gentil
Publicado em 1936, Raízes do Brasil apresentou uma das expressões mais conhecidas — e mais mal interpretadas — do pensamento social brasileiro: o “homem cordial”.
Sérgio Buarque de Holanda não pretendia dizer que o brasileiro é naturalmente educado, bondoso ou hospitaleiro, ou mesmo Condescendente e demonstra tolerância ou indulgência excessiva diante do erro, ou mesmo a dominação que sofre. A cordialidade descrita pelo pai do genial Chico Buarque vem do cordis, do coração. Significa a tendência de conduzir as relações públicas pela emoção, pela proximidade e pelos vínculos pessoais.
Na prática, se configurou na dificuldade de separar claramente o público do privado; a regra impessoal da amizade; o direito do favor; a administração da intimidade.
Em Mato Grosso do Sul – e, de regra, em todo o Brasil -, essa lógica pode ser observada quando a avaliação de um governante se confunde com a simpatia que ele desperta; quando a crítica administrativa é tratada como ofensa pessoal; ou quando a relação com a autoridade pesa mais do que a qualidade do serviço público recebido.
É assim que o político deixa de ser cobrado como representante temporário da sociedade e passa a ser defendido como amigo, chefe ou benfeitor. A pergunta já não é se a política pública funciona, mas se o político que elegemos é uma boa pessoa, se recebeu alguém no gabinete ou se atendeu a uma solicitação particular.
A cordialidade transforma cidadania em proximidade. E, quando isso acontece, quem não tem acesso ao círculo dos conhecidos corre o risco de permanecer fora das prioridades do poder.
O Estado como propriedade de quem governa
Em Os Donos do Poder, publicado em 1958, Raymundo Faoro desenvolveu uma ampla interpretação sobre a formação do Estado brasileiro e a persistência do patrimonialismo, expressão cunhada pelo filósofo Max Weber (o preferido de Fernando Henrique Cardoso), que explica a característica de um Estado sem distinções entre os limites do público e os limites do privado.
A tese, evidentemente, é mais complexa do que a ideia de que todo agente público coloca dinheiro no próprio bolso. Patrimonialismo é, antes de tudo, uma maneira de enxergar o Estado como extensão dos interesses de um grupo que se instala no comando das instituições e passa a administrá-las como se fossem parte de seu patrimônio político.
Os governos mudam, os partidos trocam de nome, os adversários de ontem tornam-se aliados e novas siglas são incorporadas ao bloco dominante. Entretanto, a lógica pode permanecer, a de controlar a máquina pública, distribuir espaços, acomodar interesses e converter recursos institucionais em capacidade de preservação do poder.
Em Mato Grosso do Sul, onde alianças partidárias frequentemente atravessam fronteiras ideológicas – da extrema direita a mais radical esquerda -, com surpreendente facilidade, Faoro ajuda a formular uma pergunta incômoda: nossos agrupamentos políticos são organizados em torno de projetos de sociedade ou, principalmente, em torno das possibilidades oferecidas pelo poder?
Não se trata de acusar governos e, principalmente, servidores. O serviço público é formado, em sua maioria, por profissionais que mantêm o Estado bem funcionando apesar das pressões políticas. A questão é outra, até que ponto as instituições conseguem agir com autonomia diante dos grupos que ocupam temporariamente o governo?
Quando a máquina passa a ser apresentada como propriedade de uma administração, até obras realizadas com dinheiro público ganham dono, sobrenome e material de propaganda.
O coronel trocou a enxada pelas redes sociais
Coronelismo, Enxada e Voto, publicado em 1949, nasceu de uma pesquisa acadêmica de Victor Nunes Leal e tornou-se um marco da ciência política brasileira. Como não a li totalmente, é a obra que mais me tomou tempo de pesquisa para a formulação desse texto. Mas, vamos lá.
O coronelismo histórico foi um fenômeno específico, durante a Primeira República (do início do século XX até 1930), com o poder da monarquia praticamente herdado pelos grandes proprietários, como uma “compensação” pela Abolição da Escravatura, que retirou mão de obra praticamente de graça das mãos da elite rural. Não é correto transportar mecanicamente aquele modelo para o presente. Mas as relações de dependência, clientelismo e controle local examinadas pelo autor ajudam a iluminar comportamentos que sobreviveram sob outras formas.
O antigo coronel controlava votos pela terra, pelo emprego, pela proteção e pelo acesso aos serviços básicos. O poder contemporâneo é mais sofisticado, e circula por contratos, estruturas partidárias, cargos de confiança, influência econômica, controle da comunicação e capacidade de determinar quais lideranças terão espaço para crescer.
Em municípios pequenos, nos quais a prefeitura figura entre os principais centros de emprego e movimentação econômica, a independência política pode custar caro. Criticar o prefeito, apoiar um adversário ou simplesmente não participar do grupo dominante pode significar isolamento social e perda de oportunidades. Ou, em alguns casos, situações até piores, relativas à segurança pessoal ou da família.
O voto já não é mais “de cabresto”, mas ainda pode ser conduzido por relações de dependência. O coronel não precisa mais usar botas, chapéu e revólver na cintura, e pode aparecer de terno, sorrir diante de uma câmera de celular que depois viram moderno “cortes” para redes sociais, que após organiza a influência por grupos de mensagens e plataformas digitais.
Muda a tecnologia. A concentração de poder, porém, continua.
O sertão que o poder prefere não enxergar
Em Os Sertões, de 1902, Euclides da Cunha narrou a Guerra de Canudos e revelou o abismo entre o Brasil oficial e o Brasil real. De todas, essa é minha obra preferida. Euclides era jornalista, dos bons, e a obra surgiu do trabalho de Euclides da Cunha como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Guerra de Canudos.
Em 1897, ele foi enviado ao sertão da Bahia para acompanhar a fase final do conflito entre o Exército e os seguidores de Antônio Conselheiro. De lá, escreveu reportagens e despachos para o jornal. Esses textos, juntamente com suas anotações, observações e pesquisas posteriores, serviram de base para o livro, lançado em 1902.
E o que mais me empolga e encanta é o fato de Os Sertões poder ser aproximado do que hoje chamamos de romance de não ficção, mesmo que essa classificação exige ressalvas, por narrar acontecimentos reais da Guerra de Canudos, utilizando pesquisa, testemunho jornalístico, documentos históricos e recursos de linguagem literária. Nesse sentido, antecipa características do jornalismo literário e da narrativa de não ficção, gênero que me identifico totalmente.
A obra expôs um Estado que desconhecia parte do próprio povo e, por isso, tratava a diferença como inimiga. Longe, muito longe, de viver um conflito sangrento, Mato Grosso do Sul também possui territórios e populações que nem sempre aparecem na propaganda otimista do desenvolvimento. O Estado abriga 116.469 indígenas, o terceiro maior contingente do país, segundo o Censo de 2022 do IBGE. Ao mesmo tempo, os conflitos envolvendo terras indígenas, especialmente no sul do estado, continuam exigindo ações de mediação e segurança pública. Em 2024, o governo federal chegou a ampliar a presença da Força Nacional após ataques contra indígenas Guarani e Kaiowá em Douradina e Caarapó.
Obviamente que a comparação e lembrança de Canudos com MS recomenda prudência. Quando o poder enxerga uma comunidade apenas como obstáculo, problema de segurança ou empecilho ao progresso, abdica de compreender a história que produziu o conflito.
O desenvolvimento de Mato Grosso do Sul é real, mas não será completo enquanto seus resultados não alcançarem igualmente a periferia urbana, os pequenos municípios, os assentamentos, as aldeias e os trabalhadores que raramente aparecem nas fotografias oficiais.
Uma economia não pode crescer enquanto parte da sociedade continua esperando água, moradia, escola, atendimento médico e reconhecimento de seus direitos.
A casa-grande ainda projeta sua sombra
Publicado em 1933, Casa-Grande & Senzala ocupa um lugar central — e controverso — na interpretação do Brasil. Gilberto Freyre mostrou a importância da mestiçagem na formação cultural brasileira, mas sua abordagem passou a ser criticada por suavizar conflitos e violências produzidos pela escravidão. Ainda assim, é difícil compreender as relações raciais, familiares e sociais do país sem enfrentar o debate provocado pelo livro.
A escravidão não deixou como herança apenas o racismo, mas, principalmente uma sociedade profundamente hierarquizada, na qual algumas pessoas se acostumaram a mandar e outras foram ensinadas a obedecer. Deixou a naturalização do privilégio, a tolerância com desigualdades extremas e a ideia de que a proximidade entre senhor e subordinado substitui direitos.
Mato Grosso do Sul é resultado de muitos encontros. Povos indígenas, migrantes brasileiros de diferentes regiões, paraguaios, bolivianos, japoneses, árabes e descendentes de europeus contribuíram para sua identidade. Essa diversidade, porém, não elimina desigualdades. A celebração da mistura não pode servir para esconder quem permanece distante dos centros de decisão econômica e política.
A pergunta necessária é simples: a diversidade que aparece no discurso também está representada nos espaços em que o poder decide?
Um estado jovem com estruturas antigas
Mato Grosso do Sul existe formalmente desde 1977 e foi instalado em 1979. Sua juventude institucional, no entanto, não significa que tenha começado do zero no final dos anos 1970. O estado herdou estruturas fundiárias, redes familiares, grupos econômicos, práticas administrativas e modelos de ocupação política formados muito antes da divisão territorial. Em síntese, a estrutura de poder do então sul de Mato Grosso era, sim, ainda mais arcaica do que a do interior de São Paulo, por exemplo.
Por isso, seria ingênuo imaginar que todos os problemas locais poderiam ser explicados pela personalidade de um governador, prefeito, senador ou deputado. Os nomes importam e as escolhas individuais produzem consequências, mas, a política também é resultado de estruturas que recompensam determinados comportamentos que, histórica e culturalmente, dificultam mudanças mais profundas.
É justamente esse o ponto comum entre os cinco livros apresentados na postagem que inspirou este artigo, nenhum deles se dedica a atacar um político específico. Todos procuram identificar mecanismos que sobrevivem às pessoas e a atual estrutura política.
Muda-se o ocupante do gabinete, de direita ou de esquerda ou mesmo do centro, mas a cultura do favor permanece. Troca-se o partido, mas a máquina continua sendo usada para construir fidelidades. Renovam-se os discursos, mas as candidaturas permanecem dependentes dos mesmos grupos. Faz-se propaganda de modernidade, enquanto antigas relações de mando continuam operando nos bastidores.
Em 2026, escolher nomes não será suficiente. Mato Grosso do Sul chega às eleições com pouco mais de dois milhões de eleitores aptos a votar, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral. TRE-MS. A campanha já está abundante de slogans, vídeos emocionantes, promessas e acusações. Os candidatos tentarão convencer o eleitor de que o futuro depende exclusivamente da vitória de determinado nome.
A leitura dos clássicos sugere uma atitude mais exigente. Além de perguntar quem deve governar, o eleitor precisa questionar quais interesses sustentam cada candidatura; como são formadas as alianças; quem financia a conquista do poder; quais grupos permanecem fora das decisões; como são escolhidos os ocupantes dos cargos públicos; e se o Estado serve à sociedade inteira ou prioritariamente aos que conseguem se aproximar do governo. E isso não vale apenas para cargos do Poder Executivo, mas também para quem vai nos representar nas casas de lei federais e estadual, porque é ali que se constoem maiorias política e de grupos.
Ler não elimina divergências ideológicas. Ao contrário, qualifica-as. Quem conhece as raízes do país percebe que direita e esquerda podem reproduzir práticas patrimonialistas; que discursos modernos podem proteger estruturas antigas; e que a retórica da renovação nem sempre produz mudança.
Mato Grosso do Sul não precisa discutir se troca ou não nomes no comando. Precisa fortalecer instituições, ampliar a transparência, assegurar a impessoalidade administrativa e reduzir a dependência da sociedade em relação aos favores do poder.
A democracia amadurece quando o cidadão deixa de agradecer pelo direito recebido e começa a cobrar pelo dever não cumprido, porque discutir política apenas pela manchete produz indignação passageira. Compreendê-la pela raiz pode produzir transformação.
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