Ex-deputado Neno Razuk é entregue à PF na fronteira e segue sob custódia para Campo Grande
Neno foi interceptado pela polícia boliviana e repassado à Polícia Federal em Corumbá
A derrocada política e jurídica do ex-deputado estadual Neno Razuk (PL) ganhou contornos definitivos nas últimas horas. Capturado pela polícia da Bolívia no domingo (2) após meses no exterior, o ex-parlamentar ingressou no território sul-mato-grossense sob custódia pesada e tem como destino direto o sistema prisional de Campo Grande, encerrando uma complexa articulação de bastidores que envolvia tentativas de rendição negociada.
A transferência mobilizou forças policiais na região fronteiriça. Entregue à Polícia Federal em Corumbá no fim da noite de domingo, Neno passou por exames de corpo de delito no Instituto Médico e Odontológico Legal (Imol) da cidade pantaneira na manhã desta segunda-feira (3) e deixou a região por volta das 11h30, sob forte escolta.
Articulação de bastidor e cerco policial
Informações apuradas pela reportagem indicam que o ex-deputado se abrigava na região de Santa Cruz de la Sierra desde maio, logo após ter a perda do mandato confirmada no dia 24 do mesmo mês. A estratégia de permanência no país vizinho, contudo, ruiu com a sequência de derrotas judiciais.
Com o recurso negado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — o que sepultou qualquer chance de reaver a cadeira na Assembleia Legislativa e o consequente foro privilegiado — e a rejeição de um pedido liminar de habeas corpus, Neno passou a desenhar sua apresentação formal às autoridades locais. A defesa já havia ingressado com petição perante o juiz José Henrique Kaster Franco, da 4ª Vara Criminal de Campo Grande, prevendo a entrega do ex-parlamentar ao Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) entre esta segunda e terça-feira.
Entretanto, o movimento de regresso ao Brasil foi interrompido antes do planejado pela abordagem das forças policiais bolivianas.
Em nota oficial, a Polícia Federal rebateu a tese de mera apresentação voluntária e destacou o trabalho de inteligência transfronteiriça. “A atuação coordenada entre as instituições envolvidas permitiu o compartilhamento célere de informações, a realização de diligências e o alinalhamento operacional necessário para a localização do alvo”, informou a instituição. O nome de Neno já estava sob análise do comando central da Interpol, na França, antecedendo a inclusão formal na lista de difusão vermelha.
O império sob escrutínio: Do Gaeco à herança familiar
A prisão do ex-deputado é desdobramento direto da Operação Successione, deflagrada pelo Gaeco/MPMS em dezembro de 2023. A investigação desmantelou uma engrenagem violenta voltada ao domínio do jogo do bicho na Capital, resultando no indiciamento e na denúncia de dez pessoas — com Neno Razuk figurando no topo da pirâmide como ostensivo líder da organização criminosa.
O avanço das investigações sobre Neno acerta no coração de um dos clãs políticos mais tradicionais e controversos da região de Dourados e da Grande Fronteira:
- Roberto Razuk (Pai): Apontado pelo Ministério Público como o patriarca que chefiou por décadas o monopólio da jogatina no Sul do Estado, cumpre atualmente prisão domiciliar.
- Rafael e Jorge Razuk (Irmãos): Ambos seguem custodiados em unidades prisionais após desdobramentos de operações paralelas.
A derrocada da família Razuk no controle da jogatina ilícita expõe a reconfiguração das forças do crime organizado em Mato Grosso do Sul, espaço historicamente ocupado por figuras centrais como Fahd Jamil até meados dos anos 1990 e retalhado em disputas recentes de poder.
O desembarque do ex-deputado na capital sul-mato-grossense transfere agora os refletores para o Poder Judiciário, onde os desdobramentos das ações penais da Successione prometem movimentar a cena política e policial do Estado nos próximos dias.
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