Do asfalto paulista às águas pantaneiras: a história do Sr. Vanderlei Sanches Vitório, o homem que viveu do seu jeito e amou tudo o que tinha
O Sr Vanderlei, sem dúvida, foi um dos melhores presentes que Aquidauana já recebeu
Tem gente que passa pela vida como quem cruza uma sala: entra, olha em volta e se vai. E tem gente que passa e deixa a sala transformada para sempre. Vanderlei Sanches Vitorio, que nos deixou na noite de 25 de abril de 2026, aos 75 anos, pertencia, sem dúvida, a este segundo grupo.
Nascido na efervescente São Paulo em 21 de julho de 1950, Vanderlei trazia em si a inquietude saudável dos espíritos livres. A capital paulista, que crescia depressa, cheirando a borracha e ambição, não era grande o suficiente para conter sua vontade de conhecer o mundo. Ainda jovem, iniciou uma jornada que o levou por várias cidades, cada uma deixando nele uma lição, uma amizade, um traço de caráter. Aprendeu cedo que a vida se constrói no caminho, não apenas no destino, e que quem mantém os olhos abertos nunca sai de um lugar de mãos vazias.
Mas foi quando seus passos o trouxeram a Aquidauana que algo fundamental mudou. Talvez tenha sido o silêncio das águas, o horizonte sem fim ou a simplicidade honesta da gente da terra. O fato é que Vanderlei olhou para o Pantanal e reconheceu nele o lugar que sua alma procurava há muito tempo. Ali, ele fincou raízes profundas.
Para Vanderlei, a natureza não era um passatempo; era uma religião. Encontrava sua maior vitalidade debaixo de uma mangueira, numa rede balançando, ouvindo o som do mato e o canto dos pássaros que anunciam o dia. Admirava um pôr do sol pantaneiro com a mesma intensidade com que debatia os rumos do país, entendendo que o verdadeiro luxo é saber apreciar o que a natureza oferece generosamente. Aquidauana deixou de ser apenas um ponto no mapa e tornou-se a extensão do seu próprio ser. Quem o conheceu não conseguia imaginá-lo em outro lugar. Ele era dali. Ponto final.
Empreendedor nato, Vanderlei não esperava as oportunidades baterem à porta. Ele ia até elas, abria-as com um sorriso e já entrava sabendo o que queria. Atuou com seguros e no comércio, colocando em tudo o ingrediente que nenhuma escola ensina: a confiança genuína de quem acredita no que faz. Visionário, enxergava tendências quando muitos ainda olhavam para trás. Falava de coisas que as pessoas só entenderiam depois, demonstrando a paciência especial de esperar o mundo chegar onde ele já estava. Determinado, sim, mas com a leveza de quem sabe que correr demais pode fazer você perder a paisagem. No fim, o que ele realmente vendia era confiança. E isso ninguém devolve.
Poucos possuíam o dom de Vanderlei de chegar a um lugar e, em pouco tempo, tornar-se um dos seus. Não escolhia amigos por idade, posição ou pensamento alinhado; escolhia pela genuinidade. Com os mais novos, exercia uma paciência e interesse reais; com os mais velhos, mantinha o respeito e a curiosidade de quem ainda queria aprender. Em uma conversa com ele, você sentia que era o centro do mundo, porque ele ouvia de verdade, não apenas esperava sua vez de falar. E quando respondia, suas palavras permaneciam.
Dessa capacidade de reunir pessoas nasceu o grupo “Amigos do Pantanal”. Muito mais do que um simples grupo de WhatsApp, tornou-se o retrato do que ele era: alguém capaz de criar comunidade onde havia apenas vizinhos e de transformar convicções compartilhadas em ação coletiva. Formado por pessoas da região de Aquidauana comprometidas com os valores conservadores que Vanderlei defendia com unhas e dentes, o grupo tornou-se uma referência política no Pantanal Sul-Mato-Grossense. Filiado ao Partido Liberal (PL) e militante convicto, Vanderlei era presença constante nos debates que moldavam a vida política local. Acreditava que o cidadão de verdade participa, debate e age. Vanderlei era a alma, o motor e a voz desse movimento.
Mas por trás da figura pública e do ativista fervoroso, havia o homem de família. E no centro de tudo, o amor de Marilene. Um amor firme, que não precisava de palco, mas que estava lá toda vez que o mundo chacoalhava. Companheira de uma vida inteira, Marilene, que dedica suas sextas-feiras ao trabalho voluntário no Hospital do Câncer e conhecia de perto a dor de tantas famílias, viu a mesma doença bater à sua porta. Brigou com ele mil vezes para que fosse ao médico, alertou, insistiu. Ele ouvia com aquele sorriso maroto de quem acha que sabe mais, e seguia do seu jeito. Mas nunca duvidou do amor contido naquelas brigas; sabia que ali havia cuidado. E o cuidado dela, até o fim, foi real e comovente.
Juntos, construíram uma família que é a expressão completa de quem foram: uma família de histórias entrelaçadas, amores e recomeços. Carregam, com respeito e saudade, a memória de Thamires, filha amada que partiu antes do pai — uma dor que Vanderlei carregou calado, com a dignidade de quem chora por dentro mas não desmorona por fora. E havia a Beatriz, a netinha que ele chamava carinhosamente de “pretinha” com voz cheia de amor de avô. Mesmo nos últimos momentos, entre dores e cansaço, perguntava por ela. “Ele deixou um legado de netos maravilhosos. E deixou pra gente essa coisa de nunca desistir. Nem no pior momento, ele queria viver”, relata Marilene.
A batalha contra o câncer foi longa e travada com a mesma teimosia nobre que Vanderlei colocava em tudo na vida. Após um diagnóstico inicial em 2010 e um tratamento considerado curatívo, ele, fiel ao seu jeito de ser, recusou uma cirurgia complementar, assinando um documento de recusa que Marilene guarda até hoje. Anos depois, a doença voltou, silenciosa e impiedosa, atacando a coluna vertebral. Ele, que nunca gostou de médicos e remédios, viu-se diante de uma batalha que a força de vontade sozinha não vencia. Mas não desanimou. Nos últimos dias, tomado por dores que a morfina mal continha, fazia planos. Falava em viagens com Marilene, prometia ser um homem diferente, mais gentil, mais presente, dizia que ia parar de discutir e tratar todo mundo melhor.
“Ele estava super animado, fazendo tantos sonhos pra gente viajar. Ele falou que queria ser uma outra pessoa, que ia tratar bem todo mundo, que ia ser um senhor diferente”, conta Marilene. Era como se a vida, em seus capítulos finais, tivesse arrancado as cascas e revelado o núcleo mais puro de um homem que, no fundo, só queria amar e ser amado.
Na noite de 25 de abril, foi o filho Alexandre quem esteve ao seu lado no hospital. Marilene, gripada após noites seguidas de vigília, ficara em casa por orientação médica, com o coração partido. Alexandre dormia na poltrona ao lado da cama quando, naquele silêncio único entre pai e filho, o coração de Vanderlei parou. Partiu em paz, do seu jeito. “Eu acho que ele morreu em paz. Ele não está mais sofrendo dores”, consola-se Marilene.
Vanderlei Sanches Vitorio deixou São Paulo ainda jovem, percorreu caminhos, e ao chegar ao Pantanal, soube que tinha chegado em casa. Aquidauana foi sua melhor escolha. E ele foi, sem dúvida, um dos melhores presentes que Aquidauana já recebeu. Deixa para todos nós a certeza de que viveu de verdade, do seu jeito, amando com tudo o que tinha.
A família agradece cada oração, mensagem e abraço recebido neste momento de dor.
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