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Meio Ambiente

Água tratada, meio ambiente seguro: a primeira vacina da Comunidade Homex

Na Comunidade, a transformação começa pela torneira, com água tratada, esgoto coletado e meio ambiente preservado

Rodson Lima

Mequeias bebe água direto da fonte provando que a água é potável e segura. Foto: Ana Paula Fernandes

“Antigamente, quando eu ia pra escola, não tinha água. A gente tinha que ligar o cano, puxar mangueira ou pegar galão na casa da minha tia”, lembra Mequeias Amorito Nascimento, 12 anos, estudante da Escola Municipal Maria Regina. Essa lembrança reflete a realidade que, por muitos anos, afetou mais de 5 mil famílias da Comunidade Homex, localizada no bairro Centro Oeste, em Campo Grande. Hoje, graças à chegada da água e do esgoto tratados, a comunidade não vive mais essa situação, e o saneamento transformou a rotina e a saúde dos moradores, além de contribuir para a preservação ambiental da região.

Por trás das palavras simples de um estudante do sexto ano, está o reflexo de uma mudança profunda, resultado da entrega de uma grande obra realizada pela Águas Guariroba, em parceria com a Prefeitura de Campo Grande. Em junho de 2024, foram implantados cerca de 15 quilômetros de rede de água e mais 14 quilômetros de rede de esgoto na comunidade, evitando o descarte irregular direto no solo e beneficiando milhares de famílias que aguardavam pela regularização há mais de uma década.

O menino aprendeu na escola o que antes não existia na prática: o valor de ter água tratada e esgoto coletado. Hoje, fala com a segurança de quem entende o que significa ter saúde saindo da torneira e o meio ambiente preservado. “Na escola a gente aprende que a água precisa ser tratada, porque a do poço podia dar doença, além de contaminar o solo. Agora é melhor, né? Tem água na própria casa e esgoto tratado”.

A fala de Mequeias coincide com a visão da médica infectologista Dra. Ivone Lima Martos, da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), que destaca que o saneamento básico é o primeiro e mais eficaz instrumento de prevenção de doenças. “Antes mesmo das vacinas aplicadas no braço, a água tratada e o saneamento adequado já funcionam como uma forma de imunização coletiva. Eles reduzem drasticamente o risco de transmissão de doenças”.

A médica infectologista da SESAU, Dra. Ivone Lima Martos

A especialista explica que, quando o saneamento é precário, o solo e a água se tornam meios de propagação de vírus, bactérias e protozoários. “As doenças de veiculação hídrica, como hepatite A, cólera, verminoses, leptospirose e infecções por rotavírus, atingem principalmente crianças e idosos. O rotavírus, por exemplo, causa diarreia intensa e pode levar à desidratação grave. A água contaminada perpetua o ciclo de adoecimento”.

Ela reforça que o saneamento, quando realizado adequadamente, se torna uma medida de justiça social e saúde pública, porque evita internações, reduz custos hospitalares e garante dignidade às famílias. “Investir em saneamento é investir em vida. É a primeira vacina de uma comunidade”.

Saneamento e Saúde Única

Mequeias pontuou bem a questão sobre a água que buscava na casa da tia e as várias fossas sépticas que existiam ao redor. “A gente pegava água no poço, mas tinha muita fossa por perto. Na escola, aprendi que isso podia contaminar o solo e a água que passa por baixo da terra”, conta o estudante.

A contaminação do solo e, consequentemente, da água, em razão do esgotamento irregular de resíduos, impacta diretamente o meio ambiente. Essa preocupação está englobada no conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas. Nesse sentido, o saneamento é uma das principais ferramentas de equilíbrio ecológico e prevenção de doenças, pois impede que resíduos e poluentes atinjam os ecossistemas.

A bióloga e sanitarista Danielle Ahad das Neves, da SES/MS

A bióloga e sanitarista Danielle Ahad das Neves, da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul, explica que essa contaminação subterrânea é um dos maiores riscos ambientais quando não há saneamento adequado.

“A água tratada é fundamental não só para a saúde das pessoas, mas também para o equilíbrio ambiental. Quando não há tratamento adequado da água e também do esgoto, os poluentes acabam infiltrando no solo e contaminando o lençol freático, que é uma das principais fontes de abastecimento de água potável. Esse tratamento impede a contaminação e protege também os aquíferos, mantém o ciclo natural da água em equilíbrio e, além disso, evita doenças, reduz a poluição dos rios e solos e contribui para um meio ambiente mais saudável”, destaca.

A auditora fiscal Mônica Teicher, da Vigilância Sanitária de Campo Grande, reforça essa preocupação. Segundo ela, o município não recomenda o uso de poços artesianos justamente para evitar a contaminação subterrânea.

“A água que passa por baixo do solo pode carregar poluentes e atingir o lençol freático. Por isso, é importante priorizar o abastecimento por rede tratada e o sistema de coleta de esgoto. O investimento em saneamento protege não só a saúde das pessoas, como também o meio ambiente”, ressalta.

Essa integração entre saúde, meio ambiente e infraestrutura urbana traduz o verdadeiro sentido da Saúde Única: garantir qualidade de vida, sustentabilidade e o uso responsável dos recursos naturais, preservando o equilíbrio entre pessoas, animais e ecossistemas.

Água limpa em casa

Durante uma brincadeira no jardim em frente de casa, como banho de mangueira para se refrescar, o jovem Mequeias não precisa mais se preocupar. Agora, ele apenas abre a torneira e a água jorra limpa. “Agora é diferente. A gente tem água em casa”.

Mequeias e o pai, Alessandro, durante brincadeira no jardim

O monitoramento da qualidade da água é realizado de forma permanente pela Vigilância Sanitária de Campo Grande, por meio do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiagua). A auditora fiscal Mônica Teicher explica que o município realiza 648 coletas anuais, com análises no laboratório do Lacen/MS. “Nosso trabalho é verificar se a água que chega até o cavalete do consumidor está dentro dos padrões de potabilidade. As análises checam cloro, coliformes e turbidez. Quando encontramos algo fora do padrão, a concessionária é acionada e resolve rapidamente”.

A auditora fiscal Mônica Teicher, da Vigilância Sanitária de Campo Grande

Mônica lembra que Campo Grande já atingiu as metas do Marco Legal do Saneamento antes do prazo nacional de 2033. “Hoje, a cidade é referência. Mas é importante lembrar que a limpeza da caixa d’água a cada seis meses continua sendo responsabilidade do morador. Isso faz diferença na qualidade final da água consumida”.

Água de qualidade e investimento

O pastor Alessandro Ferreira do Nascimento, pai de Mequeias

 O avanço do saneamento também é percebido por quem viveu outra realidade. O pai de Mequeias, o pastor Alessandro Ferreira do Nascimento, 37 anos, morador há quatro anos na Comunidade Homex, lembra do tempo em que morava em sua cidade natal, Rio Branco, no Acre. “Lá no Acre faltava água quase quatro dias seguidos. A população fazia manifestação nas BRs. Aqui é diferente: a água chega 24 horas por dia, é limpa, boa. É um sonho.

Agora, ela chega na torneira. A saúde melhorou, a casa melhorou. A água tratada e o esgoto mudaram nossa vida e o ambiente”.

Conforme a Águas Guariroba, Campo Grande vive uma das maiores expansões de saneamento do país. Desde o início do programa municipal, já foram implantados mais de 3,2 mil quilômetros de rede de esgoto, com 304 mil ligações domiciliares, além de contribuir para a preservação do meio ambiente. “Hoje, 99% da população tem acesso à água de qualidade e 94% conta com coleta e tratamento de esgoto. Isso representa saúde, valorização e qualidade de vida”, afirma o diretor-presidente da Águas Guariroba, Gabriel Buim.

Todo o esgoto coletado na capital é 100% tratado antes de ser devolvido à natureza, garantindo sustentabilidade e proteção ambiental. Duas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) já estão em operação, e a terceira está em fase final de construção, com capacidade média de 92,6 milhões de litros tratados por dia, o equivalente a 16,5 mil piscinas olímpicas por ano.

O diretor-presidente da Águas Guariroba, Gabriel Buim

Nos próximos anos, a concessionária pretende expandir ainda mais a rede de esgoto, com 697 quilômetros de novas redes e 66 mil ligações domiciliares, em um investimento de cerca de R$ 750 milhões até 2028. O objetivo é atingir 98% de cobertura de esgoto coletado e tratado, consolidando Campo Grande como uma das capitais mais saneadas do país.

As obras terão prioridade em bairros com maior adensamento urbano, como Tijuca, Tiradentes, Vila Popular, Noroeste, Centenário, Nova Lima, Jardim Noroeste, Mata do Jacinto, José Abrão e Aero Rancho.

No olhar de Mequeias, a lição aprendida na escola se materializa em cada gota que cai da torneira. A água tratada, agora presente no cotidiano da Comunidade Homex, é mais do que conforto: é a primeira vacina da vida, um direito que começa na torneira e segue fluindo, sendo preservado de forma sustentável e ambiental, levando dignidade, saúde e futuro a quem esperou por tanto tempo por esse momento.

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