Senado vota projeto relatado por Nelsinho Trad que cria o primeiro marco legal da atividade de inteligência no Brasil
Nelsinho analisou 49 emendas apresentadas por 14 senadores de diferentes correntes políticas
Mais de 25 anos depois da criação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o Congresso Nacional deve votar, nesta quarta-feira (8), o primeiro projeto que regulamenta de forma abrangente como a atividade de inteligência pode ser exercida pelo estado brasileiro.
Relatado pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), o PL 6.423/2025 enfrenta uma lacuna histórica da legislação brasileira. Embora a Lei nº 9.883, de 1999, tenha criado o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) e instituído a Abin, ela nunca definiu regras detalhadas sobre como a atividade deve ser conduzida, quais instrumentos podem ser utilizados, quais são seus limites e quais mecanismos de fiscalização devem ser observados.
“Tudo que vem no sentido de aprimorar para que a gente possa oferecer segurança pública mais eficiente para a população terá, aqui no nosso gabinete, no nosso mandato, a voz e a vez”, comentou o senador.
Segundo o senador Nelsinho Trad, o PL da Inteligência visa a ocupar espaço e garantir o compartilhamento com as questões da segurança pública. “No sentido de oferecer mais tranquilidade e enfrentamento às organizações criminosas e ao crime organizado”, afirmou o senador Nelsinho Trad.
A discussão ocorre em um momento em que a segurança voltou ao centro da agenda nacional. O avanço do crime organizado, a internacionalização das facções criminosas, as ameaças cibernéticas e os recentes debates envolvendo a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos reforçaram a importância da inteligência como ferramenta estratégica de Estado.
Para o senador Nelsinho Trad, esses desafios demonstram que o Brasil precisa fortalecer sua capacidade institucional de produzir conhecimento estratégico e antecipar riscos. “O crime organizado mudou de patamar. Hoje ele atua além das fronteiras, movimenta recursos internacionais, utiliza tecnologia e desafia as estruturas tradicionais de segurança. A resposta do Estado também precisa evoluir.”
O que muda?
O substitutivo apresentado pelo senador Nelsinho Trad promove mudanças relevantes em relação ao texto original após a análise de 49 emendas apresentadas por parlamentares de diferentes partidos.
Entre os principais avanços estão:
- Vedação expressa ao uso político ou eleitoral da atividade de inteligência;
- Proibição da produção de informações baseadas exclusivamente em convicções políticas, religiosas, filosóficas, ideológicas ou eleitorais;
- Exclusão da obrigação de armazenamento massivo de dados por provedores de internet;
- Exigência de autorização judicial para medidas sigilosas excepcionais;
- Criação de mecanismos de rastreabilidade e controle sobre o acesso a informações;
- Fortalecimento da segurança jurídica dos profissionais de inteligência;
- Inclusão do crime organizado entre as hipóteses que justificam o emprego de técnicas especiais de inteligência.
Construção coletiva
Durante a relatoria, o senador analisou 49 emendas apresentadas por 14 senadores de diferentes correntes políticas.
Do total, 23 foram acolhidas integralmente e outras 10 parcialmente, demonstrando, segundo o parlamentar, a construção coletiva de um texto mais equilibrado.
“Uma legislação dessa importância precisava nascer do diálogo. Incorporamos contribuições que aperfeiçoaram o projeto, reforçaram as garantias individuais e deram mais segurança jurídica à atividade.”
O projeto chegou a ser pautado anteriormente, em abril, mas sua votação foi adiada após pedido do governo. Com o compromisso de apreciação antes do recesso parlamentar, a proposta retorna agora ao Plenário.
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